UM NÚMERO DA ESTATÍSTICA

"Não é o universal e o regular que caracterizam o indivíduo. Normalmente confundimos autoconhecimento com o conhecimento da personalidade consciente do eu. Aquele que tem alguma consciência do eu acredita, obviamente, conhecer a si mesmo. O eu, no entanto, só conhece os seus próprios conteúdos, desconhecendo o inconsciente e seus respectivos conteúdos. O homem mede seu autoconhecimento através daquilo que o meio social sabe normalmente a seu respeito e não a partir do fato psíquico real que, na maior parte das vezes, lhe é desconhecido".


Toda teoria que se baseia na experiência é, necessariamente, estatística; ela estipula uma média ideal, que elimina todas as exceções, em cada extremidade da escala, em cima e embaixo, substituindo-as por um valor médio abstrato.
O método estatístico proporciona um termo médio ideal de uma conjuntura de fatos e não o quadro de sua realidade empírica. Embora possa fornecer um aspecto incontestável da realidade, pode falsear a verdade factual, a ponto de incorrer em graves erros.
Sob a influência dos pressupostos científicos, tanto a psique como o homem individual, e na verdade qualquer acontecimento singular, sofrem um nivelamento e um processo de deformação que distorce a imagem da realidade e a transforma em média ideal. Entretanto, não podemos subestimar o efeito psicológico da imagem estatística do mundo: ela reprime o fator individual em favor de unidades anônimas que se acumulam em formações de massa. Em lugar da essência singular concreta, surgem nomes de organizações e, no ápice desse processo o conceito abstrato do Estado enquanto princípio da realidade política. É inevitável, então, que a responsabilidade moral do indivíduo seja substituída pela razão do Estado. Em lugar da diferenciação moral e espiritual do indivíduo, aparecem os serviços públicos e a elevação do padrão de vida. O sentido e a finalidade da vida individual (a única vida real!) não repousam mais sobre o desenvolvimento individual mas sobre uma razão de Estado, imposta de fora para dentro do homem. A decisão moral e a conduta de vida são, progressivamente, retiradas do indivíduo que, encarado como unidade social, passa a ser administrado, nutrido, vestido, formado, alojado e organizado segundo a satisfação da massa. Administradores, por sua vez, constituem também unidades sociais, com a diferença apenas de que são os defensores especializados da doutrina do Estado. Para essa função, não são necessárias personalidades com grande capacidade de discernimento, mas somente especialistas que nada mais saibam fazer senão coisas de sua especialidade. A razão de Estado decide o que se deve ensinar e aprender.
No momento em que o indivíduo se massifica, torna-se obsoleto. Além das aglomerações de grandes massas humanas nas quais o indivíduo, mais cedo ou mais tarde desaparece, um dos principais fatores da massificação é o racionalismo científico. Este deita por terra os fundamentos e a dignidade da vida individual ao retirar do homem a sua individualidade, transformando-o em unidade social e num número abstrato da estatística de uma organização. Do ponto de vista racional e exterior, não se consegue mais imaginar como se poderia atribuir alguma dignidade à vida individual.
O indivíduo, portanto, nesse horizonte, possui uma importância mínima. É uma espécie em extinção. O fato de o indivíduo atribuir importância à sua própria pessoa, aos membros de sua família e aos amigos e conhecidos que compõem o seu meio somente comprova a estranha subjetividade de seu sentimento. Na verdade, o que significam esses poucos em comparação com os dez mil, cem mil ou milhões que o rodeiam?
Quanto maior a multidão, mais "indigno" o indivíduo. Quando o indivíduo, esmagado pela sensação de sua insignificância e impotência, vê que a vida perdeu sentido - que afinal não é a mesma coisa que bem estar social e alto padrão de vida - encontra-se a caminho da escravidão do Estado e, sem saber nem querer torna-se seu prosélito. Aquele que só admite olhar a partir de uma perspectiva externa e dos grandes números nada possui que possa defendê-lo do testemunho de seus sentidos e de sua razão. É precisamente isso que todo mundo faz: deixar-se fascinar e subjugar pelas verdades estatísticas e pelas grandes cifras e ser, diariamente, doutrinado acerca da unidade e impotência da personalidade singular devido a sua incapacidade de representar e personificar uma organização de massa. Por outro lado, o indivíduo que entra em cena à vista de todos e faz ouvir sua voz às multidões, parece, ao ver do público sem senso crítico, sustentado por determinado movimento de massa ou pela opinião pública, que então o aceita ou combate. Como, em geral, predomina a sugestão de massa, não fica muito evidente se a sua mensagem é dela mesma, pela qual tem responsabilidade pessoal, ou se funciona apenas como porta-voz da opinião coletiva.
Nessas circunstâncias, se compreende que o juízo individual seja cada vez mais inseguro de si mesmo e que a responsabilidade seja coletivizada ao máximo: o indivíduo renuncia a julgar, confiando o julgamento a uma corporação. Com isso, o indivíduo se torna, cada vez mais, uma função da sociedade que, por sua vez, reivindica para si a função de único portador real da vida, mesmo que, no fundo, não passe de uma idéia assim como o Estado. Ambos são hipostasiados, ou seja, tornam-se autônomos. E, desse modo, transformam-se numa personalidade quase viva, da qual tudo se pode esperar. Na verdade, o Estado representa uma camuflagem para todos os indivíduos que sabem manipulá-lo. O Estado de direito resvala para a situação de uma forma primitiva de sociedade, isto é, do comunismo das tribos primitivas sujeitas à autocracia de um chefe ou de uma oligarquia.

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