A RELIGIÃO ECLESIÁSTICA E DE ESTADO


Ainda não se pode ver de modo preciso as conseqüências que poderiam advir de um conhecimento mais geral a respeito do paralelismo fatal entre a religião eclesiástica e a religião de Estado. A exigência de caráter absoluto, representada pelo homem, da civitas Dei é, infelizmente, muito semelhante à "divindade" do Estado. A conseqüência moral que um Inácio de Loiola deduz da autoridade da Igreja ("o fim santifica os meios") antecipa a mentira como instrumento político do Estado, de maneira muito perigosa. Tanto um como outro propiciam, por fim, a submissão incondicional à fé, restringindo, portanto, a liberdade do homem perante Deus e diante do Estado, cavando a sepultura do indívíduo. A existência esmagada desse único portador de vida que conhecemos se vê ameaçada por todos os lados, apesar da promessa de uma existência ideal. Quantos, na verdade, poderiam opor uma resistência ativa e duradoura à sabedoria popular que afirma: "Mais vale um pássaro na mão do que dois voando"? Ademais o ocidente cultiva a mesma cultura científica e racionalista da religião de Estado do Leste, caracterizada pela tendência ao nivelamento estatístico e aos fins materialistas.
O que o Ocidente, com suas cisões políticas e confessionais, pode oferecer ao indivíduo moderno a fim de aliviar suas aflições? Infelizmente nada, a não ser alguns caminhos cuja finalidade única é muito semelhante ao ideal marxista. O entendimento não necessita de esforço especial para reconhecer onde a ideologia comunista assenta a certeza e a convicção de que o tempo trabalha a seu favor e que o mundo se encontra maduro para uma conversão. Os fatos falam, nesse sentido, uma linguagem bem precisa. De nada ajudaria ao Ocidente fechar os olhos para essa realidade e se recusar a perceber sua vulnerabilidade fatal. Quem foi sempre ensinado a se submeter incondicionalmente a uma fé coletiva e a abdicar do eterno direito de sua liberdade e do respectivo dever de sua responsabilidade individual, permanecerá na mesma atitude, com a mesma fé e falta de crítica, se enveredar para uma direção oposta ou substituir o idealismo confessado por outra convicção, mesmo considerada "melhor". O que aconteceu, há não muito tempo, com um dos povos da cultura européia? Costuma-se acusar o povo alemão de ter esquecido tudo o que houve. Mas nada garante que algo semelhante também não pudesse ter ocorrido em outros lugares.
Estas idéias suscitam, em toda parte, fortes dúvidas e resistências e pode-se mesmo dizer que a única convicção realmente aceita de maneira ampla e irrestrita é a desvalorização do indivíduo em comparação com os grandes números. Costuma-se afirmar que, a partir de agora, o mundo moderno é o mundo do homem, ele é quem domina o ar, a água e a terra e que o destino histórico dos povos depende de sua decisão e vontade. Esse retrato tão orgulhoso da grandeza humana infelizmente não passa de uma grande ilusão que rapidamente se desfaz diante de uma realidade tão diversa. Na realidade, o homem é escravo e vítima das máquinas que lhe arrancam seu tempo e espaço; a técnica de guerra, que deveria proteger e defender sua existência física, o reprime e ameaça; a liberdade espiritual e moral, embora ameaçada pela desorientação e pelo caos, está garantida dentro do possível apenas numa parte do seu mundo, enquanto que na outra já foi totalmente aniquilada. Por fim - onde a comédia termina em tragédia - o senhor dos elementos, essa instância de todas as decisões, cultiva uma série de idéias e concepções e propriedades não o fazem grande, ao contrário, o diminuem. Isso é comprovado pelo destino do trabalhador no regime de distribuição "justa" de bens: ele paga com o prejuízo de sua própria pessoa a as participação na fábrica; troca sua liberdade de movimento pelo aprisionamento no local de trabalho; emprega todos os meios de que dispõe para melhorar seu posto, se não quiser se deixar explorar por um trabalho de empreitada esgotante; e quando sente o apelo de qualquer exigência espiritual, recebe prontas as sentenças de fé políticas e o suplemento de algum saber especializado. Ademais, um teto sobre a cabeça e a forragem diária do gado não são coisas desprezíveis quando as necessidades vitais podem ser reduzidas de um momento para o outro.
As igrejas, com a promessa de cuidar da saúde da alma individual, servem oportunamente à ação massificada, exorcizando o diabo com Belzebu. Parece que elas não se dão conta da constatação mais elementar da psicologia de massa, sendo a qual o indivíduo na massificação sofre uma degradação moral e espiritual, e elas se esquecem de que sua própria tarefa é possibilitar ao homem singular - com a graça de Deus - a metanóia, ou seja, o renascimento espiritual. Já sabemos que, sem uma verdadeira renovação espiritual do indivíduo, a sociedade em si não constitui um caminho de renovação, já que ela nada mais é do que a soma de indivíduos que necessitam de salvação. Só consigo interpretar como alienação o empenho das Igrejas em aprisionar o indivíduo dentro de uma organização social e transportá-lo para uma condição na qual o seu sentido de responsabilidade se vê diminuído, principalmente, quando o seu verdadeiro objetivo deveria ser retirá-lo da massa insconsciente e cega, conscientizando-o de que a salvação do mundo depende de sua própria alma. A reunião de massa à qual a Igreja o convida lhe sugere sempre as mesmas idéias e procura impô-las com os recursos da sugestão. A grande ilusão consiste em impor, num curto espaço de tempo, um outro slogan como se fosse novo e mais iluminador. A influência individual com Deus seria uma proteção eficaz contra a influência nefasta da ação massificada.
A Igreja procura dar uma orientação à massa amorfa e tenta, pela sugestão, reunir os indivíduos numa comunidade de fiéis, ela não presta apenas um grande serviço social como beneficia o indivíduo com a garantia de uma forma de vida plena de sentido. Contudo, via de regra, esses préstimos proporcionam mais confirmação de tendências do que de transformação. A experiência nos tem mostrado, infelizmente, que a comunidade não é capaz de transformar interiormente o indivíduo. O meio não tem condições de fornecer de maneira imediata aquilo que o homem só pode adquirir através do esforço e do sofrimento. Ela passa, por assim dizer, um verniz nas aparências, dando a ilusão de que houve realmente uma transformação profunda e verdadeira na interioridade do homem, que aliás seria muito necessária, considerando-se os fenômenos atuais de massa e os problemas que daí poderiam advir. As cifras populacionais não diminuem, aumentando sem cessar. As distâncias se reduzem e a terra parece encolher-se. Hoje podemos ver, de modo transparente, o que pode resultar das organizações de massa. Já é, portanto, tempo de nos perguntarmos o que se obtém com essas organizações, isto é, qual a condição do homem real, do indivíduo e não do homem estatístico. Esse questionamento, porém, só é possível através de uma nova compreensão de si mesmo.
O movimento de massa resvala, como se pode esperar, do alto de um plano inclinado estabelecido pelos grandes números: a pessoa só está segura onde muitos estão; o que muitos acreditam deve ser verdadeiro; o que muitos almejam deve ser digno de luta, necessário e, portanto, bom; o poder se vê forçado a satisfazer o desejo de muitos. Mas o mais belo mesmo é escorregar com leveza e sem dor para a terra das crianças, sob a proteção dos pais, livre de qualquer responsabilidade e preocupação. Pensar e preocupar-se é da competência dos que estão lá no alto; lá existem respostas para todas as perguntas e necessidades. Tudo o que é necessário encontra-se à disposição. Nesse estado onírico infantil o homem massaficado é tão irrealista que ele jamais se pergunta quem paga por esse paraíso. A prestação de contas é feita pela instituição que se lhe sobrepõe, o que é uma situação confortável para ela, pois aumenta ainda mais o seu poder. Quanto maior o poder, mais fraco e desprotegido o indivíduo.
Toda vez que esse tipo de situação social se desenvolve, adquirindo grande extensão, abre-se o caminho para a tirania e a liberdade do indivíduo se transforma em escravidão física e espiritual. Sendo sempre imoral e perversa, a tirania se sente mais livre na escolha de seus métodos do que a instituição que, de certo modo, ainda deve explicações ao indivíduo. Caso entre em conflito com o Estado organizado, logo perceberia a real desvantagem de sua moralidade e acabaria se servindo dos mesmos métodos que este. Desse modo, o mal se dissemina automaticamente mesmo quando a contaminação ainda poderia ser evitada. Esse perigo é ainda maior quando as grandes cifras e os valores estatísticos possuem uma importância decisiva, como é o caso do mundo ocidental. Os grandes números - as massas e o poder esmagador - são diariamente impostos a nossos olhos pelos jornais o que, implicitamente, reafirma a falta de importância do indivíduo, a ponto de lhe retirar todas as esperanças de ser ouvido em algum tempo ou lugar. Os ideais de "liberté, égalité, fraternité", transformados em meros chavões, não podem sequer ajudá-lo pois ele só pode dirigir esse apelo aos seus próprios carrascos, os representantes da massa.

O MISTÉRIO DE WOTAN      UM NÚMERO DA ESTATÍSTICA      O PERIGO DA MASSIFICAÇÃO      I CHING
     ALLEGORIA ALCHYMICA      A RELIGIÃO ECLESIÁSTICA E DE ESTADO      QUINTAESSÊNCIA, CORPO E ALMA     
A RAIZ DA VIOLÊNCIA      JUNG NA WEB      By Arlene Borja