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O PERIGO DA MASSIFICAÇÃO
TU PADECES DA FOME DO INFINITO?
Pois saibas, que quanto mais te apegares àquilo que tudo mundo
deseja ter, tanto mais estás sendo um homem qualquer, que, em todo o
caso, anda tropeçando pelo mundo à maneira de um cego e, na qualidade
de guia de paralíticos, pisa em falso, ostentando a segurança de um
sonâmbulo, no que és acompanhado por todos os paralíticos. Um "homem
qualquer" sempre quer dizer muita gente. Purifica teu interesse de
qualquer enxofre coletivo, que adere todos como uma lepra. O desejo
arde apenas para arder até o fim, e é neste fogo e deste fogo que se
forma o verdadeiro espírito vital, o qual produz uma vida segundo suas
leis e não está deformado em conseqüência da miopia de nossas intenções
ou da arrogância grosseira e supersticiosa de nossa vontade.
VIVES UMA VERDADEIRA EXPOLIAÇÃO DE SI MESMO?
Aquilo que de nenhum modo se pode explorar, torna-se
desinteressante - daí o pouco valor atribuído à alma. Outra razão é a
desvalorização habitual referente a todas as coisas que não se pode
pegar com as mãos ou compreender. Nos últimos tempos, ao erro
tradicional, se associa ainda uma opinião supostamente biológica ou
materialista, que até agora na avaliação do homem, ainda não
ultrapassou o modo de considera-lo apenas como animal gregário, e em
que como motivação dele apenas reconhece categorias de impulsos de
fome, poder e sexo. Pensa-se em centenas de milhares ou em milhões de
exemplares, em relação aos quais não haverá naturalmente questões mais
importantes do que saber de quem é o rebanho, onde está pastando, se
nasceram bezerros suficientes, se foi produzida a quantidade
correspondente de leite e de carne.
Diante desses números imensos desaparece a mínima sombra de
individualidade, pois a estatística apaga tudo aquilo que aparece uma
única vez. Diante de tal poder e miséria, o indivíduo até sente
acanhamento de existir. Mas o portador verdadeiro da vida é sempre o
indivíduo. Apenas ele sente a felicidade, somente ele tem virtude e
responsabilidade e ética. Nada disso tem a massa e o Estado.
Apenas como individuo é que o homem vive; o Estado porém, é apenas uma
máquina para separar e ordenar as massas. Todo aquele, pois, que, em se
tratando de coisas humanas, pensar menos no homem e se interessar mais
por grandes números, fazendo de si mesmo como um átomo, torna-se
salteador e ladrão de si mesmo. Junto com os outros apanhou ele a lepra
do pensar coletivo e se tornou um dos moradores daquele curral punitivo
e doentio que tem o nome de "Estado totalitário". Nosso tempo produz e
contém boa porção desse "enxofre bruto", que pela sua malignidade
impede que o homem atinja seu próprio ser.
O espírito da verdade interior, mede a grandeza dos homens, não em sua relação com a massa, mas quanto ao mistério da alma.
Não é um "povo de 80 milhões" nem o Estado que sente a felicidade e o contentamento, mas apenas o indivíduo.
O indivíduo morre por causa do veneno do pensar coletivo da massa,
da estatística e da organização; e se torna vítima da loucura
catastrófica, que mais cedo ou mais tarde se apodera da massa e é o
entusiasmo pela morte. No domínio dos homens isso se chama guerra.
Contra a superioridade e a brutalidade da convicção coletiva nada tem o homem para opor a não ser o mistério de sua alma viva.
Enquanto alguém souber que é um portador da vida e considerar
importante que esteja vivendo, então também ainda estará vivo o
mistério de sua alma, pouco importando que seja de modo consciente ou
inconsciente. Se, porém, alguém não enxergar que a finalidade de sua
vida consiste em que ela se realize, e também não acreditar que existe
um eterno direito humano de liberdade para obter essa realização, então
essa pessoa traiu e perdeu sua própria alma, e a substituiu por uma
ilusão que leva à ruína, como nosso tempo mostra tão claramente. |