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ALLEGORIA ALCHYMICA
"Se souberes irrigar esta terra árida com a água apropriada, dilatarás (ou afrouxarás) os
poros da terra".
Quando sentires como estagnação e ermo estéril a tua falta de
fantasia, de idéias súbitas, de vivacidade interior, e te puseres a
contemplar isso com grande interesse ( = o tornares prenhe) que em ti
desperta tanto o alarme por perceberes a morte interior, como também o
clamor do deserto (não raro um "call of the wild"), então fica sabendo
que poderá acontecer algo contigo, pois o vazio interior oculta uma
plenitude tão grande como ele, contanto que apenas permitas que ela
possa penetrar em ti. Se te mostrares acessível ao clamor do deserto,
então o desejo de plenitude dará vida ao vazio e ao ermo de tua alma,
como a chuva atua sobre a terra seca. (Assim fala a alma ao
experimentador de laboratório que mantém o olhar fixo e cravado na
estufa, enquanto coça atrás da orelha, porque nada mais lhe vem à
mente). "e se este ladrão exterior for lançado fora com os que operam iniqüidade",
Estás assim tão estéril porque, sem teu conhecimento, algo
semelhante a um mau espírito obstrui a fonte da tua fantasia, o poço da
tua alma. O inimigo é o teu enxofre bruto, que te faz arder no fogo
infernal do desejo, isto é, da concupiscência. Gostarias de fazer ouro,
porque pensas:
"Pobreza é o maior flagelo,
Riqueza é o maior bem".
Desejarias resultados que afagassem tua "superbia", ou de maneira
mais breve desejavas a eficácia, mas nisso nem se deve pensar. Como
pressentes apavorado. Por isso queres ser fértil, pois então seria
apenas por amor de Deus - mas não lamentavelmente por amor a ti mesmo.
"Pelo acréscimo de enxofre verdadeiro a água será purificada da sujeira leprosa e da umidade hidrópica supérflua".
Procura, pois, afastar essa concupiscência grosseira e vulgar, que
apenas conhece metas dentro dos limites de teu horizonte, por ser
infantil e míope. Pressupõe-se, entretanto, que o enxofre seja um
spiritus vitalis; na verdade, ele é um "Jezer Horra", ou seja, um
impulso do mal, um espírito mau da paixão, mas mesmo assim é um
elemento ativo. Mas a maldade dele, que em certas circunstâncias é
útil, serve de impedimento entre ti e a tua meta. A água do teu
interesse não é limpa, mas se acha envenenada pela lepra da
concupiscência, que é comum a todos. Também tu estás atacado dessa
doença coletiva. Portanto faze o favor de refletir, "extrahe
cotitationem", sobre o que se acha oculto por trás dessa
concupiscência. Trata-se de um "padecer fome do infinito", como vês, de
um não estar satisfeito com o que há de melhor, pois isso eqüivale ao
"Hades", em honra do qual toda a concupiscência "celebra um descanso
festivo". Quanto mais te apegares àquilo que todo o mundo deseja ter,
tanto mais estás sendo um homem qualquer, que, em todo o caso, anda
tropeçando pelo mundo à maneira de um cego e, na qualidade de guia de
paralíticos, pisa em falso, ostentando a segurança de um sonâmbulo, no
que és acompanhado por todos os paralíticos. Um "homem qualquer" sempre
quer dizer muita gente. Purifica teu interesse de qualquer enxofre
coletivo, que adere a todos como uma lepra. O desejo arde apenas para
arder até o fim, e é neste fogo e deste fogo que se forma o verdadeiro
espírito vital, o qual produz uma vida segundo suas leis e não está
deformado em conseqüência da miopia de nossas intenções ou da
arrogância grosseira e supersticiosa de nossa vontade.
"E assim terás virtualmente a frontezinha do conde de Trevis, cujas águas com toda razão são dedicadas à virgem Diana".
"Quero decantar o que é vivo,
e que deseja a morte nas chamas..."
Isto significa queimar-se em seu próprio fogo e por isso não
pretender passar porventura como sendo um cometa ou um farol em marcha,
que indica aos outros o caminho "certo", enquanto ele próprio o
desconhece. O inconsciente deseja que haja algum interesse para
existir, e reclama primeiramente ser aceito assim como ele é. Desde que
esteja estabelecida a existência daquele mundo com que se defronta,
então o eu não apenas pode, mas até deve discutir consigo mesmo e tomar
posição perante as exigências surgidas por isso. Se não houver
reconhecimento do conteúdo dado pelo inconsciente, então não apenas
será impossível (isso vale apenas dentro do processo de confrontação
com o inconsciente), seu efeito compensatório, mas ele até se mudará em
seu oposto, porque nesse caso procurará ele impor-se no verdadeiro
sentido da palavra. |