O MISTÉRIO DE WOTAN


Tem um vento, que sopra desde os confins do mundo e da antigüidade da Ásia à Europa, fazendo com que, exteriormente, os povos se amontoem como folhas secas e, interiormente, gerem pensamentos capazes de estremecer o mundo; é o Dionísio elementar que rompe e desfaz a ordem apolínea.
Wotan é o nome desse desencadeador de tempestades. Se pretendemos conhecer o seu caráter de maneira mais precisa, é necessário captar não apenas os seus efeitos históricos nas revoluções e conturbações como também as expressões mitológicas que recebeu em várias épocas, as quais não se explicam com base exclusivamente no homem e em suas possibilidades limitadas, mas encontram suas raízes mais profundas no aspecto psíquico e em sua força autônoma. A intuição primitiva sempre personificou esses poderes na figura dos deuses, caracterizando-os com grande cuidado e abrangência através dos mitos, segundo a natureza. Isso é ainda mais possível ao se tratar de tipos e imagens originárias invariáveis que brotam espontaneamente no inconsciente de inúmeros povos e se caracterizam por um comportamento peculiar. Nesse sentido podemos falar de um arquétipo "Wotan" que, enquanto fator psíquico autônomo, produz efeitos coletivos que significam a projeção do quadro de sua própria natureza. Wotan possui uma biologia própria, distinta da essência do homem singular que apenas ocasionalmente se vê possuído pela influência irresistível desse fator inconsciente.
Nos períodos de paz, a existência do arquétipo Wotan se mostra tão inconsciente quanto um epilepsia latente. Esse deus do vento que sopra de onde lhe apraz e ninguém sabe de onde vem e para onde vai, se apossa de tudo em seu caminho, devastando o que não tem firmeza. Quando o vento sopra, arrasta tudo o que, exterior ou interiormente, não é seguro.
Wotan é descrito como homem-fera, pelos estudiosos - deus da tempestade, andarilho, errante, lutador, deus do desejo e do amor, senhor dos mortos e dos guerreiros, conhecedor do oculto, mago e deus dos poetas. Ele incorpora tanto o lado impulsivo-emocional do inconsciente quanto o lado intuitivo-inspirador, sendo, de um lado, o deus da fúria e do delírio e, de outro, o revelador dos signos misteriosos e o provedor dos destinos.
Embora identificado pelos romanos como Mercúrio, sua natureza não corresponde propriamente a nenhum dos deuses gregos ou romanos. Com Mercúrio, Wotan tem em comum a errância, com Plutão e Crono, o domínio dos mortos; com Dionísio, o delírio em sua forma encantatória. Esse deus germânico representa uma totalidade que, num nível primitivo, corresponde a uma condição psíquica em que o homem só queria o que seu deus queria enquanto seu destino dependia desse deus. Já entre os gregos, haviam deuses que prestavam ajuda contra deuses, e Zeus, o pai de todos, não estava muito longe do ideal do déspota esclarecido e bem intencionado.
Wotan, não apresenta nenhum sinal de idade; ele simplesmente desapareceu quando os tempos se voltaram contra ele, conforme o seu modo de ser, permanecendo invisível por mais de 1000 anos, ou seja, mantendo-se ativo de maneira anônima e indireta. Na verdade, os arquétipos são como leitos de rios, abandonados pelas águas mas guardando sempre a possibilidade de retornar depois de um certo tempo. Um arquétipo é como o curso de uma velha torrente em que fluíam várias águas da vida e que foram profundamente enterradas. E quanto mais tempo tenham seguido uma determinada direção, mais provável que para lá regressem.
Enquanto a vida do indivíduo é regulada pela sociedade à semelhança de um canal retentor de águas, sobretudo no âmbito do Estado, a vida dos povos se mostra como o curso de uma torrente do qual ninguém é senhor, ao menos nenhum homem, a não ser aquele um que foi sempre mais forte do que os homens. A vida dos povos transcorre de modo incontrolável, desorientado e inconsciente, à imagem de uma rocha que se precipita encosta abaixo, só se deixando frear por um obstáculo ainda mais poderoso do que ela. É por isso que o acontecer político corre de um beco sem saída para outro, com um riacho na selva que flui por entre barrancas, meandros e pântanos.
Quando se trata do movimento da massa e não mais do indívíduo, cessam os regulamentos humanos e os arquétipos passam a atuar. É o que também acontece na vida do indivíduo quando este se vê diante de situações que não mais consegue controlar através das categorias que conhece e dispõe.
Se aplicarmos de maneira conseqüente nosso modo de observação, teremos de concluir que Wotan ainda haverá de mostrar, além de seu caráter inquieto, violento e tempestuoso, sua outra natureza, a do êxtase e do encantamento.
Caso essa conclusão esteja correta, o nazismo ainda não constituirá sua última expressão e poderemos aguardar coisas insuspeitáveis nos próximos anos ou décadas.
O redespertar de Wotan significa um passo atrás e uma volta; o rio represado volta a irromper em seu antigo leito. Na verdade, a represa nunca é eterna, significando bem mais um "reculer pour mieux sauter" (recuar para melhor saltar) e, decerto, a água chegará a superar o obstáculo.

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